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quarta-feira, 15 de junho de 2011

CAPITULO II - Escolha













Um ano Depois

20 de Junho









- Timaretta! Acorda! – Minha mãe explodiu no meu quarto numa camisola cheia de babados cor de rosa. Quando ela notou que eu estava acordada bateu palminhas de excitação esvoaçando os seus cabelos loiros demais, arregalando os seus olhos azuis celestes que contrastava com sua pele branca demais, e começou a cerimônia. –Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! – Correu em pequenos passos até a minha cama e me abraçou. Minha mãe era a minha definição de espírito jovem.
- Obrigada mamma! – Eu agradeci gentilmente, minha mãe era muito grega, e qualquer motivo, era motivo para magoá-la.
- Oh Mary! – Meu pai disse sonolento, tenho certeza que se não fosse pela festinha que minha mãe deu agora ela não teria levantado, apesar de ser bem afastado de mim, ele era o único que parecia entender o quanto eu odiava que me chamasse Timaretta, o meu verdadeiro nome, por isso ele me chamava de Mary. – Parabéns! – Ele disse esticando os braços e virando a palma para eu dar um aperto de mãos. Típico do meu pai, sensato, e sem emoções.
- Obrigada Papai!
- Porque você não convida os seus amiguinhos para vir brincar com você? Eu posso fazer um bolo e... – Minha mãe não sabia fazer nada na cozinha, mas adorava pessoas na nossa casa, no lugar onde ela cresceu isso não era bem possível.
Abri a boca para tentar dar uma negativa, não por que eu tinha vergonha dos meus pais, mas a verdade, dura e cruel é que eu não tinha amigos, só a Nessa e Jessi, e nem preciso contar de Sean. Mas logo fui cortada.
- Elle, ela já não é uma criança! – Meu pai censurou, duvidava que ele tivesse do meu lado, ele só não gostava de gente em casa, eu ainda me perguntava como eles acabaram juntos.
- George! Eu sei do que minha filha precisa! – Ela disse num sorriso de fada, e num gesto rápido que meu pai não pode ver, por que seus olhos não eram hábeis, ela segurou na minha mão. Minha mãe era a pessoa mais linda e carinhosa que eu já havia conhecido.
- Okay Elle, mas ela precisa ir à escola! Ela está atrasada. – Meu pai era extremamente metódico, tinha o costume de dizer que estávamos atrasados. Isso irritava minha mãe que era livre como o vento.
Observamos meu pai caminhar até a porta e assim que ele a fechou minha mãe se virou rápida, mas não me sobressaltei isso era normal, para ela, mas normal.
- Tenho uma coisa para você! – Ela abriu aquele sorriso de criança, se virou e na velocidade do som ela tinha sumido e voltado em menos de meio segundo.
Ela estava com uma caixinha cor de rosa com fitas brancas e lilases na mão, eu podia adivinhar que era uma jóia.
- Os pais normais costumam dar carros, era isso que seu pai queria te dar. – Minha mãe fez uma careta em lembrar, eu não precisava ouvir para saber que ela teve que lembrá-lo que eu não precisava de um carro. E isso, com certeza gerou uma discussão... Bem grega.
- Papai não gosta de lembrar que somos diferentes não é? – Eu adivinhei pegando a caixinha.
- O seu pai está ficando velho, ele não era assim quando eu o conheci. – Ela resmungou com um bico, puxando as pernas para cima da cama e apoiando o queixo nos joelhos.
Abri a caixinha e tinha uma pulseira, de prata com o deus Éolo de strass soprando o vento.
- Mãe! Que Lindo! – Eu disse maravilhada, ela tinha um gosto tão bom para presentes.
- É Éolo, e você, precisa se lembrar de quem é filha. – Ela disse acariciando meu rosto. - “Os filhos de Éolo, são corajosos e leais, e sempre ajudam o próximo, e as filhas, são as mais belas, educadas e honradas que já existiu.” – Ela recitou o versinho dos filhos de Éolo, era o verso que regia a minha vida.
- Aposto que o papai não gostou da representação. – Eu a lembrei.
- Ele não gostou, não gosta que você seja como eu. Ele sabe que você não será como as outras pessoas, por isso exige tanto de você! De que você seja o mais normal possível. – Ela o defendeu.
Fiquei calada um tempo, mexendo no pingente de Éolo.
- No que você está pensando? – Ela me perguntou.
- Em você e no papai. – Eu disse num sussurro.
- Como assim? – Ela perguntou colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
Suspirei e comecei.
- Mãe ele é tão diferente de você, - Parei e olhei o lençol que já estava uma bagunça enorme. - você é tão viva, alegre, doce, e o papai, é tão... – Eu iria dizer rabugento, mas isso provavelmente iria magoá-la.
- Rabugento? – Minha mãe adivinhou com um sorriso bobo no rosto.
- É! – eu disse eufórica, como ela sabia q eu ia dizer isso?
- Timaretta... –Ela começou.
-Mary – Eu repreendi.
- Okay, okay, Mary querida, seu pai era um advogado recém formado, e eu uma garota que fazia canto. Nós éramos como o ar. Precisávamos existir juntos. Ele tinha uma banda de blues, um Mustang verde, e queria ser o advogado que mudaria o mundo. – Ela riu das próprias lembranças. – Ele me pediu em casamento num barzinho em Cape May. – Era uma cidadezinha praiana. – No meio da música que a banda dele tocava. – Ela mordeu os lábios
Eu não conseguia associar George Fox do passado de minha mãe ao George Fox meu pai.
- Eu sei esse nem parece o seu pai. Mas ele ficou assim, metódico, frio e previsível quando no dia seguinte do nosso casamento ele descobriu que eu iria viver para sempre, e ele não. Quando você nasceu, e você podia levitar a chupeta, quando chorava abria as janelas, seu pai teve medo que você nunca pudesse ter uma vida normal, então decidiu impor a você a vida mais normal que possa ter. Ele tem medo de perder você e a mim. – Ela disse com os olhos cheios de lágrima.
Eu nunca tinha pensado nesse lado, que eu não iria envelhecer e iria ver meu pai e Damien...
Não eu não podia pensar nisso.
Embora Damien me tirasse do sério, ele sempre fazia as coisas que eu gostava como por meu cereal com leite de manhã. E meu pai, embora fosse distante, ele sempre foi um bom pai.
O desespero começou a vir. Eu não tinha muito tempo, a vida infinita que eu imaginava com as pessoas que eu amo.
Agir como uma imortal era estressante para o meu pai, por que ficava claro demais para ele, que ele não ficaria comigo o tempo que eu tinha.
Afinal de contas eu tinha um motivo para comemorar o meu aniversario, eu tinha vivido mais um ano com as pessoas que eu amo.
- Mamãe! – Eu disse numa voz urgente. – Quer saber, eu tenho um plano. - Eu pulei da cama e abri o meu closet.
- É? Que plano? – Ela se sobressaltou.
- Acho que vou dar uma festa! – Eu disse com o maior entusiasmo que eu podia. Afinal, eu nem ligava pra isso mesmo.
- Haaiiii que bom! – Ela pulou e rodopiou. – Com que tema? – Ela falou em um volume alto demais.
Da qual eu congelei.
- Tema? – Eu disse me virando num átimo.
- Claro, filha, sua festa de aniversário tem que ter um tema marcante! – Minha mãe já não estava mais no meu quarto, ela estava pensando numa festa grande demais para Peterson. – Sua festa vai ser esse final de semana.
-Claro mãe. – Eu disse afinal eu devia comemorar.
- Tenho tanta coisa para arrumar! Seu pai vai adorar, afinal isso é tão normal! – Ela disse correndo como uma pessoa normal.
Peguei meu jeans e minha blusa branca com detalhes em flores que meu pai tinha me dado no natal.
Fui para o meu banheiro, e tomei meu banho, e quando eu saí, eu estava corada e com os cabelos molhados demais, então o sequei com o secador e ele ficou como sempre, liso e sem graça, enquanto eu vestia a roupa eu me olhava no espelho. Minha pele clara de mais, com os olhos cor de avelã, meus cabelos em castanho avermelhados, e meu nariz arrebitado como uma menina levada. Eu tinha o rosto de uma criança, extremamente infantil.
Parei de me lamentar no banheiro, e fui em direção à cozinha. Desci as escadas reparando em cada detalhe, senti um estranho sentimento de nostalgia no ar, junto com um vento frio da janela. Mentalmente pensei em fechá-la e com um gesto em forma de U o vento começou a puxar a janela e a fechou.
Cheguei à cozinha e me debrucei na bancada, meu pai lia o jornal carrancudo, Damien comia os cereais e minha mãe estava colocando os vasos na prateleira descendo e subindo os objetos com o dedo indicador. O que explicava a carranca do meu pai.
- Bom Dia! – Eu disse com um animo meio molenga.
- Bom Dia Mary! – Damien disse encarando o cereal desanimado.
Suspirei, ainda tinha que esperar meu pai terminar o café da manhã para ir. Há essa altura do campeonato eu podia ir sozinha, se eu não tivesse que ser um pouco normal.
Eu não tomava café da manhã, o que fazia a espera parecer infinita.
Minha mãe parou de arrumar os vasos nas prateleiras e me levou para a sala.
- Esses são seus convites. – Ela sussurrou no meu ouvido e me passou uma caixinha vermelha um pouco pesada, cheia de convites.
- Mãe eu decidi fazer a festa hoje! – Eu meio que berrei.
- Eu sei, mas eu estava prevenida, além do mais, sabe como eu amo fazer convites! –Ela disse sem se incomodar. – Distribua para os seus coleginhas de escola! – Minha mãe disse me empurrando para a porta. Eu ia protestar, mas vi meu pai no carro, tirando o carro dele da garagem. Eu dei dois passos rápidos e então decidi andar mais rápido, e em menos de uma fração de segundos, eu estava na garagem. Meu pai não me viu movimentando rápido demais para uma adolescente, então quando eu entrei no carro ele estava com a mesma expressão fria e distante de sempre.
No caminho para a escola estava decidindo quem eu iria chamar para a minha festa, já estava até um pouco animada, com as possibilidades, os garotos do futebol, as líderes de torcida, as descoladas, os nem tão descolados, e Jessica Watson e Vanessa Brandon, que eram as únicas das quais eu ainda mantinha contato, depois de tudo o que aconteceu com Candyce minha amiga que tinha se mudado para Nova Iorque.
O caminho até a escola foi normal, meu pai me levou até a escola como todos os outros dias desde os meus quatro anos. Ele ia calado e carrancudo, o que normalmente era facilmente ignorado, mas como eu estava tentando ser normal por ele, resolvi puxar assunto.
- Hmm – Pigarreei para chamar atenção. – Pai...
- Sim? – Perguntou ele com uma voz fria e longe.
- Vou dar uma festa de dezoito anos. – Eu disse e me abanei com a caixinha vermelha meio pesada, até que eu desisti do movimento.
- Que bom! – Ele disse com a voz ainda mais fria e longe.
Pela janela, vi que ninguem era levado de carro para a escola, todos tinham seus próprios carros, menos Jeffrey Smith o que ele tinha não podia ser chamado de carro. Isso me deu uma idéia.
- Pai... – comecei mais animada.
- Sim? – Perguntou-me ele com a voz agora entediada, e mais fria ainda.
- Eu já tenho minha habilitação... E já tenho dezoito anos! – Eu disse animada. Mas para o plano dar certo, encenei uma cara de menina triste. – Acho que preciso de um carro! – Nas poucas vezes que fui à casa da minha amiga Candy ela me fizera ver como a chantagem emocional para pais humanos funcionava não que eu precisasse. Ele queria me dar um mesmo.
Pela primeira vez na vida eu vi os olhos do meu pai deixar o lugar pra onde ele tinha olhado nos últimos dezoito anos e ficarem cor de avelã liquida.
- Claro! – Ele disse animado, e pigarreou para disfarçar o ânimo, mas colocava os olhos em mim disfarçadamente e logo tirava de agitação.
- Tenho que ir! – Eu disse. Olhando para a porta e analisando as pessoas.
- Claro! Claro! – Ele pigarreou outra vez. – Falamos disso quando você voltar pra casa.
Assim que desci do carro olhei as meninas da torcida no campo junto com os jogadores de futebol que aos poucos se tornavam muitos. No canto da quadra havia uma menina só, que apesar do tempo estar esfriando estava de mini saia e regatas.
-Hey! – Tomei um susto quando as duas meninas baixinhas apareceram do meu lado. – Não fala mais com a gente não?
- Hmm – procurei uma desculpa qualquer, estava pensando horrores do modelito daquele ser que eu não vi quem era.
- Ela estava brincando! – Jessy explicou, elas eram extrovertidas demais, o que era bom, por que diminuía o numero de chances de darem um bolo na minha festa.
- Há eu sei! Eu estava procurando vocês! – Eu disse, saiu tão natural que até me assustou. - Hoje é o meu aniversário de dezoito anos e... - Eu disse, mas não pude terminar de falar, por causa do berro delas.
- Temos que comemorar! – Elas diziam batendo palmas.
- E... – Eu tentei novamente. Segurando com mais forças as caixinha de convites vermelha.
- No shopping! – Vanessa disse.
- E eu vou dar uma festa! – Eu disse, esperando um novo gritinho.
- Ah! Que bom! – Jessica disse, e eu me surpreendi porque o grito e nem a animação apareceram.
- É que dia Timaretta? – Uma voz doce como mel, falou atrás de mim. E com um sorriso esnobe e gélido, deu dois passos firmes para o meu lado, sem se incomodar de estar jogando Jessy e Nessa para o lado, claro que elas não foram empurradas. Elas permaneciam num raio de 10 centímetros de distância da deusa, ou melhor, filha da deusa Afrodite, Suzan Olimpio.
Ela ainda me fitava ansiosa pela minha resposta com os olhos verdes escuros, como esmeraldas arqueadas por sobrancelhas loiras prata, no mesmo tom do cabelo loiro prata que descia até o cox com ondas, como os cabelos das famosas.
O nariz finíssimo, levemente arrebitado, o que deixava o seu rosto meio arrogante, combinado com o seu jeito de andar, de falar, e suas roupas, das quais eu estava mentalmente difamando há dois minutos, davam a qualquer um a certeza de que ela era a menina mais arrogante de Nova Jersey.
- Sábado que vem! – Eu gaguejei as palavras, abrindo a caixinha em movimentos lerdos, ela soltou um risinho esnobe, pegou um convite e saiu andando.
- Nos vemos lá então. – Ela disse por cima dos ombros. O que era ridículo, eu saberia o que ela iria dizer mesmo se estivesse na quadra, que era pra onde ela se dirigia, torcendo os pescoços de todos os meninos enquanto passava.
E finalmente o gritinho que eu esperava apareceu, só que muito mais forte.
- Suzan Olimpio – vai – na – sua – festa! – Jessica e Vanessa gritaram juntas.
- Acho que sim! – Eu disse ainda meio tonta. Eu senti um déjà vu da reação delas, mas logo percebi que era só previsível. Então minha mente voltou para o problema anterior.
Como se já não fosse ruim para uma semideusa fazer coisas humanas, ter uma deusa na sua festa bem humana era...
- Perfeito! – Vanessa continuou, completando o meu raciocínio, só que usaria palavras como, péssimo, terrível e derivados.
- Vamos à aula? – Eu disse com a voz fria, estranhamente parecida com a do meu pai.
As aulas foram lerdas, e monótonas, choveu muito forte e o tempo parecia piorar a cada segundo, eu podia sentir o ar mais pesado, e o que era ruim, muito ruim, era sinal de tempestade forte, eu só não podia dizer o quão forte.
Na hora do intervalo, eu pude ver que Suzan estava entendendo o recado tanto quanto eu, ela não era uma filha de Éolo, mas ela sabia que o vento do jeito que estava era mau sinal, porém, ela ainda estava com Joshua o capitão do time de futebol, exibindo o seu corpo e troféu para todo mundo.
- Mary, você viu como está ventando lá fora? – Vanessa perguntou.
- To toda molhada! - Jessica reclamou. Eu não tinha olhado pra janela, mas eu sabia que os ventos estavam a 100km por hora.
- Acho que vamos ter que cancelar o shopping meninas! – Eu disse, até para mim era perigoso andar numa tempestade dessa magnitude.
- Claro que não! – Vanessa protestou. - Vamos no carro da Jessy!
- É pode ser... – Eu disse.
- Ânimo Mary, você tem dezoito anos agora! – Jessy disse.
- To animada... – Eu não estava. Tinha vento demais, e eu me sentia nauseada. – Só to preocupada. Acho que não vai ter vestido que combine com chuva. – Disse brincando, até sábado com certeza estaria sol. Era estranho fazer piadinhas com elas, elas nunca entendiam o verdadeiro sentido.
- Máscaras é um ótimo tema! – Jessica disse terminando o seu almoço. – Você que escolheu? – Nesse momento as luzes se apagaram, e voltaram no mesmo minuto, Jessica nem Vanessa se incomodaram.
- Foi minha mãe, ela ama festas! – Eu disse aleatoriamente, preocupada com a tempestade.
- Você não deu nem uma dica? – Jessica perguntou de novo.
-Não... – Eu pensei em contá-la que decidi fazer uma festa hoje de manhã, e que só vi os convites, e o tema quando entreguei os convites a elas, mas isso não ia ajudar em nada.
O senhor Petterson diretor da nossa escola, caminhou até o centro do refeitório e com uma fisionomia muito seria, tossiu e bateu duas palmas, para os jogadores de futebol parecem de brincar com o macarrão e prestarem atenção.
- Devido às condições do tempo estarem ruins, e as luzes terem acabado, vocês estão dispensados – Todos começaram a gritar, ninguém entendendo que sair da escola a essa hora, era uma má coisa. – Porém, peço que os responsáveis dos menores venham retirá-los da escola devido à tempestade muito forte que se aproxima.
- Ótimo Mary, podemos ir para o shopping mais cedo! – Disse Vanessa com os olhos brilhando de excitação. Eu não era uma fã de shoppings, e eu não via o que podia ter de tão excitante.
- Tudo bem, então vamos logo, antes que a tempestade piore! – Jessica assentiu com a cabeça, mas não pareceu ficar tão alarmada, ou convencida que não devíamos pegar a tempestade.
Pegamos nossas coisas e fomos em direção ao estacionamento já vazio, a escola ficava numa estrada alternativa pouco usada, mas era próximo da estrada principal, o que explicava o estacionamento vazio, apenas com uma caminhonete nova verde garrafa.
Eu e Vanessa estávamos na porta da escola olhando o estacionamento quando Jessica procurava as chaves do carro.
- Eu juro que coloquei no bolsinho... – Jessica disse revirando a bolsa. Vanessa foi ajudar a procurar, mas eu comecei a perceber os ventos rodarem em espirais, e de repente eles começaram a ficar visíveis, e os ventos se movimentavam mais rápido e mais rápido, abri a porta e corri para tentar acalmar os ventos.
- MARY! – ouvi Vanessa gritando atrás de mim, mas eu não podia parar eu tinha que fazer alguma coisa, antes que esse tornado ficasse mais forte. Nova Jersey já tinha tido estragos demais com furacões.
Comecei a fazer movimentos em espirais no sentido anti- horário com as mãos. Infelizmente eu não tinha percebido em que sentido o furacão estava rodando, e meus movimentos só os estimularam a rodar mais rápido, ele começou a ficar num tom de cinza escuro e fazer barulhos horrendos de raios, que caíam do meu lado.
Concentrei-me em desfazer o estrago, e agitei as mãos em espirais em sentido horário dessa vez, e o furacão começou a mudar de lugar.
Droga, eu estava perdendo o controle e me sintonizando ao furacão, justamente o perigo dos furacões, ou você domina eles, ou eles dominam você, eu estava me conectando com ele, senti os meus fios castanhos se transformando em fios elétricos e meus olhos viam tudo em escarlate, porém, eu podia ver cada molécula do ar se agitando, como se colocasse lentes de aumento, em um microscópio, eu só ouvia ao fundo os raios batendo com muita força a baixo de mim, e só então percebi que não estava mais no chão.
Pode sentir que cada pedacinho do meu corpo estava como fio desencapado, liberando o meu poder de controlar os ventos contra mim mesma.
Eu estava tentando me desconectar, reverter à situação, mas eu não sentia os braços, ou as pernas, e o desespero me tomou, minha respiração queria se agitar, porém eu estava a todo o vapor, e não tinha como se agitar mais.
Sem motivo algum, senti uma desaceleração do furacão e no mesmo segundo comecei a sentir meus braços dormentes e minhas pernas doloridas, como se estivessem inchadas, e eu percebi que estava girando cada vez mais devagar, senti um puxão de baixo e cai, como um objeto jogado para cima e que cai rápido demais.
Olhei para os lados, e o tornado estava diminuindo, rápido demais, levou uns quatro segundo para se formar, e menos de dois para parar completamente.
Cai em alguma coisa, que parecia pouco resistente para a queda que levei, e logo eu rolei em algo que já esperava o chão, eu fiquei muito feliz em chegar nele inteira e consciente, só que ele ainda estava em cor escarlate.
Tenho que confessar que nessa “coisa” que eu caí era a “coisa” mais linda do mundo. Ele era lindo... Um verdadeiro deus grego pra nenhum humano botar defeito...
Enquanto ele estava me tirando daquela enrascada, que eu me meti não sei por que - tentar parar um F5! - eu tive a oportunidade de observá-lo sem ser pega no flagra...
Ele era... Tudo!
Eu sempre fui esguia, mas ainda assim ele era bem mais alto que eu. A camisa azul marinho colada ao corpo ressaltando sua pele bronzeada pelo sol - num sei de onde -, seus ombros largos, a musculatura rija e totalmente ou muito desenvolvida - pra um rapaz com cara de vinte, vinte e dois anos -. Sua cintura levemente estreita revelando coxas firmes. Enfim...
Só não tinha reparado em seu rosto...
E como se ele lesse meus pensamentos ele virou o rosto em minha direção e me encarou com uma mistura de raiva, e...? E o quê? Bom, eu não consegui revelar, mas nesses segundos eu revelei uma coisa bem melhor: seu maravilhoso rosto.
Tão duro e tão suave. Seu nariz reto e arrebitado, os olhos... Escuros? Não. Eles eram cinzas, praticamente líquidos, mas frios como o gelo e, dando um aspecto sombrio, sobrancelhas grossas e espessas. Sua boca com lábios normais... -não! Nada nele era normal -... Seus lábios estavam numa linha fina e contorcidos revelando sua raiva e não o esforço que ele havia feito para parar o F5... Seus lábios deveriam ser grossos, mas eu não tinha certeza. Nossa... O queixo dele era divino, um milagre de Zeus, quadrados e tão másculos.
Arrepio? Eu? Arrepiada?
Tá legal... Ele era... bonito, mas não o suficiente para eu me arrepiar, ora! Eu estava era com raiva por ele ser intrometido. Sim. Era somente isso. Nada além disso, ou qualquer razão desconhecida...
- Você... Você parou aquilo? – Minha voz estava rouca e eu estava gaguejando. O que era típico.
- Sim – Ele tinha uma voz muito calma, porém severa, os lábios dele, que eu achava que eram finos, se destravaram ao falar, pareciam meio cheios, e assim que voltou a fechar, a boca se tornou uma linha. – Quem é você? – Ele perguntou arrogantemente.
Eu me senti uma formiguinha pequena desajeitada e humilhada, pronta para que alguém a qualquer momento me pisasse.
- Sou Mary.– Eu disse ainda no chão, minha perna ainda estava dolorida.
- Que nome estranho para uma filha do deus Éolo, mesmo que incapaz e insignificante como você. – Ele disse isso me analisando e com cara torta, o que transformava o seu rosto muito arrogante, mais do que o de Suzan, e eu que tinha achado ele um deus grego, acabara de achar ele um arrogante convencido.
- Meu nome é Timmareta Fox. – Eu disse rispidamente, embora eu pudesse sentir a raiva transbordando de mim, os meus olhos começaram a perder a cor de vermelho.
- Fox? – Ele disse confuso. – Você é a semideusa, filha de Perimelle? – Ele perguntou com os olhos semi cerrados.
- Sim... – Eu disse surpresa. Não surpresa por ele saber quem era a minha mãe, mas sim de ele saber que ela tinha uma filha, isso não era muito comentado.
- Você deveria saber que isso é trabalho para um deus, não para uma semideusa. – ele disse cheio de nojo.
Fiquei sem reação, eu só estava tentando ajudar, como ele podia ser tão grosso?
- Eu estava tentando ajudar... – Disse de boca aberta, como é que ele não tinha percebido isso?
- E no fim, só atrapalhou. – Ele disse se virando e olhando o céu, procurando alguma coisa...
- Mary! – Senti um puxão atrás de mim, Vanessa e Jessy viram tudo, isso foi burrice, ninguém poderia saber. Olhei, ainda de costas para as meninas, para o rosto do estranho arrogante que tinha acabado de me salvar.
- Mate-as! Elas não podem saber. – Ele sibilou para mim. Eu de começo imaginei que tinha entendido errado, e aos poucos entendi que ele falava muito sério.
Meu rosto devia ter voltado para o escarlate e depois para o roxo, sem ar, ele não podia estar falando sério!
- Não vou fazer isso! – gritei. As meninas praticamente pularam de susto, e finalmente olharam para o deus na minha frente.
Ele não esperava ser contrariado então virou as costas e em um milésimo de segundo não estava mais ali.
A chuva voltou, eu olhei por reflexo para os meus ombros, e tinha um rasgo por toda a blusa, e o meu cabelo agora vermelho, no mesmo tom de como eu estava enxergando agora, como um óculos de lentes vermelho sangue.
- Mary ta tudo bem? – Vanessa perguntou indo para a minha frente.
Eu ainda estava atordoada com a ordem daquele estranho, ele era exatamente isso, um estranho, não iria matá-las por isso.
- To bem... –Disse me levantando.
-Mary... É você mesma? – Jessy disse passando a mão no meu cabelo.
- Sim Jessy sou eu. – Eu disse me dirigindo para onde ficava as mesas de piquenique longe de onde tinha acontecido o furacão.
- O que está acontecendo? – Não tinha como escapar. Teria que contar para elas.
Puxei as mesas para o lugar, e sentei. As meninas me seguiram e pensei em como iria explicar a minha historia pra elas.
- Jessy, Nessa preciso falar com vocês. – Eu disse olhando em sues olhos – Eu sou uma semideusa grega que pode controlar os ventos.
Falei rápido, ela me olharam normalmente, e achei que elas não tinham entendido. Pensei em explicá-las mais detalhadamente.
- Eu posso levitar coisas, eu posso fazer chover... eu posso correr na velocidade do som, e posso dizer que amanhã vai fazer um calor muito grande, porque o vento está pesado. Eu posso matá-las asfixiadas.
- Então, você controla o vento? – Jessy disse pensativa.
- Isso - eu disse aliviada.
- Poxa que barra! – Vanessa disse. As duas olharam para baixo, eu fiquei tensa naquela hora, elas não falavam nada, acho que estavam considerando se iriam continuar a falar comigo, ou se estavam pensando no quão perigoso era andar comigo, já que elas puderam ver que eu não sou muito controlada.
Depois de um tempo Vanessa olhou para Jessica e suspirou e as duas olharam para mim, percebi que elas estavam esperando eu acabar com o silêncio, pensei em pedir desculpas, ou dar razão a elas, eu não era normal, mas eu não queria fazer isso, além de Sean, elas eram as únicas que ainda falavam comigo.
- Então... – Vanessa disse com o rosto sério. Olhou para o relógio, e eu me preparei para o veredicto – Eu tenho que estar em casa às seis e meia, vamos pro shopping? – Ela olhou para mim e rápido virou o rosto para a Jessy.
- Vamos – Jessy se virou para ir para o carro, com a mesma fisionomia relaxada, então elas iam me ignorar.
Mas Vanessa virou e me pegou pela mão pretendendo me guiar até o carro.
- Pera! – Eu disse travando os pés no chão. –Vocês não estão entendendo!- Eu disse balançando a cabeça negativamente.
- Claro que estamos... – Jessica virou olhando as unhas...
-Mas...
- Okay! Okay! Você controla o vento! – Jessica continuou olhando paras unhas.
- Mas isso é perigoso, anormal e ruim! – Eu disse incrédula, será mesmo que elas estavam entendendo?
Na palavra perigoso Jessica fez cara de assombro e me olhou apreensiva.
- Você matou alguém! – Ela exclamou horrorizada.
- Não ultimamente... – Eu disse sarcástica e Jessica riu. – Mas ainda estou com problemas.
- Você está grávida! – Disse Vanessa mais horrorizada possível.
- Só se fosse do vento! – Eu disse sarcasticamente e insultada. Me arrependi de ter sido ríspida e sarcástica com Nessa, elas ficaram encarando o chão em um curto silencio.
- Isso é possível? – Perguntou Jessy, olhando para mim.
- Acho que não... – Disse Vanessa tirada dos pensamentos. Por um minuto eu fiquei com vontade de rir, elas estavam pensando se era possível engravidar do vento!
- Gente, eu não estou grávida, o vento é uma força, como uma pessoa para mim, mas isso não é possível! – Eu disse com muita vontade de rir, e um pouco perplexa.
- Haaa! Isso é bom! – Jessica e Vanessa disseram juntas, e sorriram relaxadas. – Então agora a gente pode ir? – Elas disseram depois de se entreolhar.
Desisti de tentar deixá-las perplexas ou assustadas, acho que teria funcionado se eu tivesse dito que uso xampu de segunda.
Entrei no carro de Jessy, ficamos as três no banco da frente. E eu fiquei na janela. Jessica ligou o radio que tocava uma música que parecia Spice Girls, e depois olhou para a janela. Virou-se para mim e pensou uns segundos.
- Verdade que amanhã vai fazer calor? – Ela perguntou séria Eu inconscientemente chequei o lugar que estava abafado, me dando um sentimento de náuseas. Abri o vidro e coloquei a mão pra fora, meus dedos sentirão a pressão do ar, e eu tinha certeza amanhã iria fazer calor.
- Sim tenho certeza! – Eu disse.
- Que bom, vou aproveitar e comprar uma camiseta nova! – Ela disse ligando o carro.
Eu fiquei sem reação, vai ver era bom elas não terem pânico. Ou talvez não.
- Sabe... toda vez que o tempo mudar, liga pra gente. – Disse Vanessa anotando o telefone delas na última folha do caderno. – E avisa. – Ela disse arrancando a pagina e sorrindo para mim.
- Toda a sua família sabe controlar o vento? – Jessy perguntou seguindo a estradinha vazia.
- Só minha mãe e eu, meu pai e meu irmão são humanos normais – Eu disse agitada.
- Por que só vocês duas ? – Jessica continuou.
- Minha mãe é filha do deus Éolo, o deus do vento, ela morava no Olimpo há uns cinquenta anos atrás, mas veio para a Terra para uma missão humanitária e trinta anos depois conheceu meu pai, se casaram e desde quando eu nasci eu já podia levitar a minha mamadeira, e bater a porta, mas meu irmãozinho não. Ele é como meu pai: normal.
- Éolo? – Vanessa disse com dificuldade em dizer o nome.
- Sim! Ele é o deus de todos os ventos, ele teve filhos com Atena, ela era a deusa da...
- Sabedoria... – Jessica terminou.
- É... E os filhos dos deuses são deuses também, e tem poderes como eles, Perimelle, Creteu, Sísifo, Deioneu, Salmoneu, Atamante, Perieres, Cercafas e, talvez, Magnes, e filhas, Calice, Peisidice, e Alcione, são filhos de Éolo, os filhos mais antigos, porém com Afrodite ele teve mais, muitos outros, e só alguns ficam na Terra, minha mãe decidiu ficar aqui. Temos muitos outros decedentes divinos aqui na Terra, por exemplo Suzan Olimpio é a filha mais nova de Afrodite.
- Uall! Por isso que é linda daquele jeito! – Jessica disse.
- Porém tem um cheiro estranho! – Vanessa disse rindo. E Jessica estorou numa gargalhada alta.
Incrivel! nenhum humano era capaz de sentir o cheiro que as filhas de Afrodite emanavam, era um odor que atraia o sexo oposto, o raio da quimica! Para os de sexo masculino era um cheiro que os chamavam, um cheiro bom, para as mulheres um cheiro um pouco forte, mas normal... Porém para quem sabia quem eram elas era um cheiro estranho. E como as duas o sentiu?
Elas eram bem especiais, talvez elas fossem capazes de me aceitar também, quando as fichas delas caíssem.
- Sua mãe veio para cá há cinquenta anos... quantos anos ela tem de verdade? – Vanessa perguntou olhando para mim, sem nem olhar para Jessica.
- dois mil quatrocentos e dois. – eu disse e sorri depois, mostrando desconforto, Jessy olhou para mim assustada. Depois, de repente virou a cara em um bico.
- Essa vida é tão injusta... Você vai ficar novinha pra sempre... – Ela disse e fazia um sinal negativo com a cabeça, o cabelo Chanel lisinho e preto balançava junto. Eu sorri timidamente, e de novo me surpreendi com a resposta dela, elas realmente tinham entendido, porém não viam problema nenhum.
- Bom você tem dezoito de verdade? – Vanessa perguntou pra mim sem graça. E colocou o cabelo laranja atrás da orelha, e coçou as sardinhas das bochechas.
- Tenho... – Eu disse quase insultada.
- Não parece... – Jessica disse rindo, ela entortou o rostinho arredondado e branquinho, e os olhos azuis turquesa brilhando deixando sua feição um tanto infantil e travessa.
Vanessa soltou um risinho conspiratório, e não pareciam que iam explicar. Meu rosto que devia estar estatelado e com os meus olhos arregalados eu perguntei com a voz um tom acima..
- Como assim?
- Você parece mais velha Mary... Tipo... Você é alta, tem um corpão e seu rosto parece de modelo sabe... – Elas me descreveram como se fizessem isso todo dia.
- Quantos anos eu pareço ter? – Eu perguntei chocada.
- Uns.. – Jessy tirou os olhos da estrada e me encarou... – Sabe que eu não sei.
- Jessica! Não tire os olhos da estrada! – Eu gritei.
-Ops! Esqueci... Desculpa – Disse ela mordendo os lábios e olhando pra estrada.
Jessica estacionou no Shopping, era mais uma galeria, e entramos, tinham várias lojas de roupas, e Jessy logo foi falando que tipo de roupa que ia querer. E Vanessa sugeriu que comprássemos as máscaras primeiro. Entramos numa loja que vendia fantasias. Achamos varias máscaras ali. E começamos a experimentar.
- Quem era o gato que te salvou hoje? – Vanessa perguntou pegando uma máscara rosa chiclete, tenebrosa e a colocando.
- Eu não sei, ele parece me conhecer, mas eu não o conheço! Eu tenho certeza que ele é um filho de Éolo também, porém ele é muito melhor do que eu! – Peguei uma máscara de tecido com glitter e cor da pele. Com uma pena da mesma cor do tecido. Jessy olhou para a máscara e depois para mim.
- Oh, meu Deus! Você tem que vestir isso! – Jessy arrancou da minha mão e foi colocando no meu rosto. Vanessa largou à tenebrosa máscara rosa chiclete e veio olhar a máscara que tinha sido brutalmente colocada em mim.
Elas deram pulinhos e risinhos de êxtase, e me empurraram para o espelho. Ficou literalmente lindo. Discreto, e lindo.
- Se você não levar essa máscara, eu bato em você pelo resto da sua vida eterna. – Vanessa ameaçou.
- Claro que vou levar... – Eu disse – Se eu não levar vou ter que usar a máscara que você acabou de descartar. - eu brinquei.
- Cruzes! Mary... Eu estava pensando em métodos de tortura para essa máscara, quem em sã consciência usaria aquilo? – Vanessa disse com a cara apavorada, com certeza ter dito que lavava meu cabelo com xampu de segunda teria feito ela ficar horrorizada, não o fato de eu ser uma imortal que controla o vento, isso é normal.
Jessica achou uma prata simples que me fazia lembrar da mulher gato, e Vanessa achou uma dourada, igual a de Jessy.
- Vestidos! Lá vamos nós! – Jessica saiu da loja indo para a próxima loja que era de surf.
- Jessy? – Eu perguntei meio em duvida se era para entrar mesmo naquela loja.
- Era só... Brincadeira... – disse ela percebendo que eu não tinha entendido a piadinha dela. –Então... – ela disse passando para a loja de vestidos.
A parte dos vestidos foi a mais complicada.Nada era bom o suficiente para Jessi, sempre era simples demais ou claro demais, até que as definições me extressaram eu me conformei. Eu não era a mesma pessoa. Eu não conseguia me concentrar em o tom perfeito, nem no tecido perfeito, eu nem queria uma festa, só pra inicio de conversa. O fato é que eu só conseguia pensar em duas coisas. Hora eu pensava na Wendy, e em como eu sentia falta dela, e horas eu pensava no cara arrogante que eu conheci essa manhã. Não conseguia tirar o rosto enfurecido da minha cabeça. O olhar era tão compenetrado, e irado, algo em seu rosto, não em seu rosto literal, mas acho que na maneira que seus lábios se mechiam me deixavam intrigada.
- O que acha desse Mary ? – Vanessa mostrou, e logo Jessi veio ver a escolha, O
vestido era bem simples, num tom de roxo, e um tecido fino, com detalhes, realmente bonito.
- Isso é meio chamativo ! – foi minha única reação, eu não estava acostumada a chamar atenção, não mais.
- Mary.. Depois que a Candyce foi embora, você mudou completamente ! Você não sai, é raríssimo sair com a gente, e até parou com a torcida! Você nem parece a mesma pessoa! – Jessi disse.
- Eu sei .. Mas é que .. sei lá .. Eu me sinto diferente.. eu não sei porque.. Mas eu quero voltar a ser o que eu era. – Eu não podia ver, mas meu rosto com certeza estava um misto de uma careta e uma lamentação.
- Ótimo! – Jessi disse e sorriu. – Experimenta o vestido, enquanto nós escolhemos os acessórios, e resgate sua roupa de torcida.. Você ira precisar dela.. para amanhã ! – Ela sorriu e Nessa sorriu também, e lógico eu sorri agradecida, e peguei o vestido. Nem preciso dizer que minha reação no provador foi, sem palavras, elas sabiam como escolher um vestido, eu não tinha mais esse dom. Mas iria reaprender. Sai da cabine e as meninas ficaram estáticas.
- Você realmente parece uma Deusa nesse vestido ! – Nessa riu e eu corei. Óbvio que eu corei, tentei dar um sorriso tímido. – Ótimo ! Acessorios ! - Eu já não agüentava mais, nós tínhamos andado tantas lojas, elas não se cansavam de procurar mais vestidos, acessórios. Cadê a antiga Mary que adorava tudo isso ? Bom, eu teria que acha-la em algum lugar, pois elas tinham planos para decoração, Buffet, e tantas coisas que eu fiquei perdida.
Depois desse dia cansativo fomos para casa, e minha mãe logo se enturmou com Jessi e Nessa falando sobre que cor ficaria melhor nas mesas, e tantas outras coisas. Jessi e Nessa tinham tantos números guardados no celular, que eu tava ficando tonta, pareciam que elas davam festas todos os dias. No final do dia, eu só queria cama. E foi o que eu fiz, fui para o meu quarto depois de tomar um banho, e tive que me preucupar em retirar todas aquelas sacolas de cima da cama, mas no fim adormeci profundamente com o cansaço.
No dia seguinte, era uma falação sobre a minha festa, e Jessi e Nessa pareciam bem mais felizes com isso do que eu, nós tínhamos andado juntas durante todo o dia, e a falação só aumentava, na hora do intervalo, a coisa estava beirando a falta de controle, e Suzan já estava me olhando torto, afinal era ela que tinha toda essa atenção. Nós sentamos na mesa das lideres de torcida, e as meninas me aceitaram de volta, muito sorridentes, e eu tive que distribuir mais convites.
- E eu não vou ser convidado ? – A voz brincalhona mais do que conhecida falou atrás de mim.
- Sean.. você sabe que esta convidado ..- Eu disse revirando os olhos, eu estava muito deslocada ali, mas Sean tinha o poder de me deixar bem mais relaxada.
- A bom ! Não quero minha menininha sozinha.. Vai ter muitos caras a caça por lá ! - Ele disse brincando, mas todas as meninas do grupo me olharam com aquele olhar, eu só sorri, e peguei uma maçã para desfarçar.
- Leva a Wendy, eu e Nessa compramos um vestido lindo para ela ! – Eu disse. – Vou passar lá pra pegar ela depois. Hoje é o meu dia de cuidar dela lembra ? – Eu disse baixinho, para dar a conversa o ar privativo.
- Ok. Você sabe que não precisa fazer isso.. é a semana do seu aniversario.. você não tem que fazer aquelas coisas de mulher ? – Ele fazia gestos por cima do cabelo ralo dele, como se estivesse os esticando, fazendo palhaçada como sempre.
- Por favor.. eu não agüento mais lojas .. eu tive muito por ontem que vale pela vida toda ! – Eu fiz uma cara de piedade, eu imploraria se precisasse.
- Você quer usar a minha filha pra se livrar das suas obrigações de aniversariante? – Ele franziu o senho.
- Não.. Talvez... O fato é que hoje é o meu dia de cuidar da minha princesa, e ponto! – Eu coloquei a maçã na bandeja e dei de ombros.
- Eu tava brincando Mary.. Ela é sua tanto quanto é minha ! – Ele deu um soquinho de leve nos meus ombros e então eu sorri para ele e logo voltamos para a conversa no centro da mesa.

– x –

O resto da semana se seguiu assim até o dia da festa. Do qual Jessica e Vanessa apareceram as cinco da manhã na minha porta, com um café do Starbucks, Jessi com o cabelo preto Chanel e um óculos escuros quadrados por causa do forte sol e Nessa com o cabelo ruivo esvoaçante solto e um vestidinho leve.
- O que fazem aqui a essa hora? – Perguntei saindo de casa de pijama de vaquinhas com muito sono, eu tinha ficado com Wendy ontem e definitivamente não tinha dormido nem duas horas.
- Vim resgatar a sua pele.. Olha essas olheiras.. – Nessa disse horrorizada. – Sinceramente .. só há um lugar que de jeito nisso ! – Jessi concordou olhando o celular com a cara meio fechada, mas logo se iluminou num lindo sorriso.
- Ótimo.. consegui uma vaga para nós no Studio Palace, o melhor cabelereiro de Nova Jersey. – Ela sorriu mais forte quase dando um pulinho.
Péra ! Ela disse Nova Jersey ?
- Jessi isso fica a duas horas daqui ! – Eu protestei.. eu nem estava mais com sono depois disso.
- Eu sei ! É melhor irmos logo ! – Ela foi para o banco do motorista, e eu não consegui protestar nem me mexer de tão chocada que estava. – Bom dia Elle!
- Ela gritou antes de abrir a porta do carro acenando para ela, eu virei e vi minha mãe sorrindo enquanto trazia as sacolas que estavam no meu quarto, Eu a encarei chocada, ela tentou me entregar as sacolas, mas eu simplismente só conseguia a encarar, por fim ela desistiu e entregou para Nessa que me conduziu até o banco de trás fechando a porta, me tratando com se eu tivesse dois anos.
Assim que ela fechou a porta e se despedirem da minha mãe, Jessi acelerou o carro.
- Isso esta muito errado ! – Foi o que eu consegui dizer antes dela ligar o radio numa estação de radio bem pop, e eu só suspirei.
Fomos ao cabeleireiro, fizemos as unhas, eu realmente estava vendo a antiga Mary, afinal a nova estava morta de tanto cansaço mas até que o resultado final estava bonito. Fizeram um
coque, meio solto no meu cabelo. Jessy e Vanessa também acharam coisas que elas gostassem, eu já estava achando que elas iam mandar fazer um vestido, e provavelmente iriam odiar quando ficassem prontos. Jessica achou um vestido tubinho bege com uma estampa meio renda.. Ela parecia ter saído de uma capa da Chanel, com aquele cabelinho curto, e o tubinho, já Vanessa estava com um vestido meio rodado, e o cabelo laranja lhe caiam pelas costas, saímos do cabeleireiro, e fomos em direção ao salão de festas. Eu juro que tive que olhar onde era.. pois eu não fazia idéia de onde era.
Fomos no carro de Jessica, o como ela dirigia feito uma doida, e por estar muito anciosa, não demorou dez minutos para que chegássemos.
O
salão era .. Enorme. Lindo. Magnífico, quantas pessoas alem dos meus convidados minha mãe terá convidado ?
Bom agora é só esperar e ver no que isso vai dar. Sai do carro de Jessi, puxando as pontas do vestido para não sujar, esperei Jessi e Nessa e então entramos juntas no salão. Esperando que a noite fosse melhor do que eu imaginava.

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