Era estranho me sentir assim tão manipulado. Logo Eu. O Grande deus Heitor, Filho de Éolo e de Afrodite. Mas tenho que confessar que Perimelle sempre foi assim, sempre conseguiu tudo o que queria. E por que comigo ia ser diferente?
Eu imediatamente lembrei que Perimelle estava próximo à Nova Jersey quando aquela imitadora de deusa, Timaretta, me disse seu sobrenome: Fox. E então resolvi lhe fazer uma visita. Sinceramente eu esperava que ela me ajudasse a voltar para o Olimpo, coisa que eu não entendia porque não conseguia voltar. Talvez Perimelle soubesse o motivo já que estava aqui na Terra há pelo menos trinta e cinco anos. Quanta coragem! Não fazia nem um dia que eu estava aqui e já não aguentava mais, quem dirá viver aqui por trinta e cinco anos!
Foi pensando isso que toquei a campanhinha. Um menino atendeu e eu logo percebi que Perimelle tinha virado uma verdadeira dona de casa com seus pirralhos puxando sua saia. O menino me olhou por um longo tempo tentando adivinhar de onde eu era, mas por não conseguir saber de onde, acho, saiu de minha frente e logo em seguida minha visão era novamente meio ofuscada pela imagem enervante de Perimelle Fox.
- Heitor?! – ela falava com uma voz de muita surpresa, mas ainda assim sua voz era praticamente cantada de tão melodiosa.
- Olá, Perimelle.
- O que você faz aqui? – ela sempre foi assim também: muito direta.
- É um prazer vê-la também...
- Oh... entre, por favor.
- Então é agora a Sra. Perimelle Fox. – Não era uma pergunta.
- Sim. Mas isso não responde a minha pergunta. O que te trás aqui?
- Não consigo voltar para o Olimpo, e...
- Ora! Porque não? – Ela também não sabia?!
- Era exatamente isso o que eu ia te perguntar. Pensei que você soubesse.
Ela me olhou por um longo momento e então um brilhosinho estranho lhe surgiu no olhar.
- Veja bem... eu estou muito ocupada agora preparando a festa de minha filha logo mais à noite e não tenho tempo para tentar achar uma solução pro seu problema... – ela desapareceu e logo voltou com uma chave numa mão e um convite em outra. – Aqui está a chave do meu apartamento, aqui de Foxtown mesmo. Vá até lá, descanse um pouco, e depois venha para a festa de minha filha. Quando chegar aqui eu o ajudo... se me ajudar.
- O que quer dizer com isso?
- A festa será às oito da noite. O endereço do salão está no convite e o endereço do meu apartamento está escrito atrás. Não se atrase.
E sem mais nem menos ela me empurrou para fora da casa. E foi assim que eu me achei andando até seu apartamento.
O apartamento por sinal era pobre. Simples demais pro meu gosto. Mas eu só ia esperar por algumas horas, então tanto fazia.
O tempo na Terra parecia uma eternidade. Mas por fim o relógio bateu sete e quarenta e cinco. Era hora ir pra festa. Porque humanos insistem tanto em ter uma festa? Aliás, o que eles chamavam de festa não passava de uma bagunça. Se eles fossem ao Olimpo eles iam entender o significado da palavra festa!
Cheguei ao local indicado. Não era muito longe da casa de Perimelle. O local era grande, ideal para uma festa.
- Vamos ao tormento.
Já tinha muita gente no local. Eu passava e todos me olhavam de um jeito curioso. Eu realmente devo ser lindo para esses humanos.
As pessoas estavam mascaradas de um traje esquisito. As mulheres usavam vestidos até o joelho, enquanto os homens pareciam pinguins, só que pinguins brancos ao invés de pretos. O efeito de luzes em suas roupas eram diferentes e interessantes, mas nada de extraordinário.
Logo meus olhos foram puxados para uma menina alta de costas que conversava com duas meninas mais baixas que ela. Na verdade, a ruiva era só um pouco mais baixa, mas a morena de cabelo estranho, curto demais pro meu gosto, era consideravelmente mais baixa.
Instintivamente reconheci Timaretta Fox. Ela segurava no colo uma criança que aparentava ter um ano e meio. Na realidade até que era uma menininha consideravelmente bonita. Cheguei mais perto delas e pude ouvir o que a morena dizia.
- Nessa, não olha agora, mas ele está olhando pra você.
- Ai Jessy não brinca! – A menina chamada, provavelmente, Vanessa dizia. – Matthew Du Toit está olhando pra mim? Eu acho que não. Deve ser pra Mary... – ela disse com uma gargalhada.
- Pra mim?! E eu lá me interesso por jogadores de Futebol? Não, muito obrigada. Prefiro os nadadores com roupas bem coladinhas... – todas soltaram uma gargalhada alta.
- Droga! Terei de trocar meu guarda-roupa inteirinho. Meninas vocês acham que eu ficaria bem com roupas “coladinhas”? Ok, não respondam, eu já sei a resposta. Eu fico bem com tudo. Eu sei, eu sei...
Pude ver um rapaz se juntando a elas na conversa. Um almofadinha, pensei. Ele parecia muito íntimo de Timaretta. Tão íntimo que a puxou pela cintura e lhe deu um beijo. No rosto. E por fim pegou a criança no colo.
- Hora da minha princesa ir para cama.
- Ahhh... – as baixinhas reclamaram em uníssono. Não Timaretta.
- Sean está certo. Essa princesinha precisa de descanso. Sean eu prometo que guardo um pedação de bolo pra você. Juro.
- Bem, se você não guardar...
- Shhh. – ela interrompeu-o rindo muito. Deu-lhe um beijo no rosto e outro na menininha.
- Tchau meninas. Divirtam-se. – disse e foi embora.
E então a morena pareceu me ver. E lançou um olhar incrédulo para mim e depois para Timaretta.
Que menina atrevida! Onde já se viu olhar assim para um deus?
Então Timaretta se virou. Eu prendi a respiração. Ela estava mais linda do que nunca. Sua roupa a deixava mais jovem, mas sua máscara dava um ar de mistério... um ar de deusa.
Ela me mediu de alto a baixo.
- Você não acha que vai ficar aqui com essa roupa, acha?
- O que há de errado com minha roupa? – indiquei minha roupa. – É digna de um deus. É feita para um deus.
Antes que Timaretta pudesse responder, a voz suave de Perimelle exclamou perplexa atrás de mim.
- CRUZES! ONDE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ? NA GRÉCIA ANTIGA? NÃO TE FALARAM QUE NÃO SE USAM MAIS ESSES... - ela olhou para minha roupa e procurando uma palavra disse com uma cara distorcida em horror – TROÇOS?
Ela realmente estava horrorizada. Mas continuou mais calma e com um leve sorriso encantador.
- Venha comigo Heity.
Eu não tive outra escolha a não ser segui-la. E nesse mesmo instante eu senti o cheiro. Das duas coisas uma: ou Afrodite saiu do Olimpo e veio pra Terra, o que era improvável, ou... Suzan Olimpio estava naquela festa.
Fui seguindo silenciosamente Perimelle até a rua pouco movimentada. Assim que pusemos os pés na rua, e ficamos longe de olhares humanos, Perimelle se pôs a correr, o que era incrível, pois ela usava uma sandália altíssima com salto quase transparente de tão fino, e sem pensar eu a estava acompanhando. Em três minutos chegamos a casa dela. Então de repente ela parou, se virou e me observou longamente. Então por fim falou:
- É. Vai servir como uma luva!
Quando ela abriu a porta e me deu passagem eu gelei, não sei por quê. Era o quarto dela. O quarto de Timaretta. Tinha uma foto dela com um recém nascido no colo e o Almofadinha com o braço em torno de seu ombro na cabeceira da cama e uma outra de uma menininha sorrindo com seus dois dentinhos colada no espelho. Sem dúvida alguma aquele era seu quarto.
Um pensamento óbvio me atingiu, e não sei porque, me deixou sem fala. Aquela garotinha era filha de Timaretta? Ou pior ainda, era filha dela e do Almofadinha? Credo. Aquilo me dava náuseas. Mas só podia ser.
- Parabéns pela sua... – como era mesmo a palavra? Comecei de novo – Parabéns pela garotinha.- disse apontando para a foto na cabeceira.
Perimelle sorriu ternamente.
- Wendy? Ela é perfeita. Depois do nascimento dela Timaretta se tornou outra, na verdade, ela e Sean se tornaram outras pessoas. Amadureceram na hora. Essa menina é muito amada pelos dois. Por mim também, é claro. Wendy conquista a todos. Até meu George solta umas boas gargalhadas com ela por perto. Ela é incrível. OK. Eu estou me saindo uma vovó coruja, não?
Credo. Mil vezes credo. Perimelle acabava de confirmar o que eu já sabia: eles eram pais da menina Wendy.
Se eles eram pais da garotinha...
Em cima da espaçosa cama estava uma roupa masculina... como se já estivesse esperando por...mim? Ou aquela roupa era do Almofadinha? Se aquelas roupas fossem dele, nem com Zeus soltando raios eu iria usá-las. De jeito nenhum.
- Essas roupas são pra mim? – eu perguntei ainda com dúvidas.
- Claro! Não vejo nenhum outro homem por aqui e meu George, apesar de ser forte, ia parecer um palitinho dentro dessa roupa. Conhecendo você como conheço sabia que iria com sua toga, mas eu ainda tinha um pouquinho de esperança que você pusesse algo mais... adequado para a ocasião, mas minhas esperanças foram por água à baixo quando te vi. Ainda bem que eu comprei essas roupas hoje de manhã... Vista-se e depois vá para a festa. E não esqueça a máscara.
Ela disse e então partiu.
Bom, pelo menos aquela roupa era para mim. e não pra Almofadinha, o tal do Sean.
Eu fiquei a observar o quarto. Que estranho. Porque eu estava tão interessado no quarto de uma imitadora de deusa? Uma semideusa?
Então rapidamente tirei minha toga e coloquei a calça jeans preta, nem muito colada nem muito folgada, uma camiseta preta bem colada ao corpo, uma camisa azul marinho por cima, que deixei os dois primeiros botões abertos, uma jaqueta jeans preta e para completar uns sapatos de couro pretos, acho que eram sociais. Como eu não podia deixar o cabelo todo bagunçado, tratei de molhá-los um pouco e penteá-los para trás e como eles eram um pouco compridos umas mechas me caiam na testa, mas nada que me incomodasse.
Olhando-me no espelho eu até parecia um humano. Que HORROR!
Então eu reparei que havia na cabeceira da cama um caderninho onde dizia na capa: Mary Fox.
Aquilo era o que os humanos chamavam de diário? Bom, só tinha um jeito de descobrir: lendo-o.
Peguei-o e comecei a folhear até que meus olhos encontraram numa página o dia do aniversário dela. O dia em que se encontrara com Timaretta.
“ Foxtown, Nova Jersey 20 de Junho
Querido Diário
Hoje é meu aniversario de 18 anos! Eu não esperava nada de diferente nesse dia, como todos falam “um dia especial”, porém eles estavam certos, hoje foi um dia surpreendentemente especial e mais surpreendentemente ainda horrível. Minha mãe decide fazer uma festa grande, enorme demais para Somerville, só aceitei porque papai, precisava disso. Depois um pequeno tornado começou na minha escola, e eu assustada o transformei em um F5! Ta! Não comenta, eu sei que fiz burrada. Mas eu já paguei por isso, um sujeitinho que apareceu parando o furacão, daqueles, bem valentões e metidos, me tirou de uma enrascada, pra colocar em outra. Ordenou que eu matasse Jessy e Nessa, nem preciso dizer que foi o maior absurdo da minha vida! se ele não tinha coração, problema dele, mas esperar que eu também não tivesse aí já era demais. Espero não encontrá-lo nunca mais, ele causou estragos demais em um dia, que valem por uma vida toda.
Eu nunca acreditei em amor ou ódio a primeira vista! Mas sabe quando algo muda a sua perspectiva de ver as coisas? Pois bem, ele mudou completamente a minha ideia da primeira impressão. Eu o odeio. “Mas o que me conforta é que eu não vou vê-lo mais...”
- Poxa! Nunca ninguém falou tão BEM de mim assim em toda a minha existência... mas quem você pensa que é Timme Fox? Você vai engolir suas palavras! Pode apostar!
E então arrumei tudo como estava e fui encarar a menina que conseguiu me odiar à primeira vista.
Quando eu estava descendo as escadas eu vi que Perimelle ainda estava ali me esperando.
- Nossa! Ficou melhor do que eu imaginava! Vem. Precisamos conversar.
Eu a segui até a sala então ela começou sempre muito direta.
- Okay Heity! Você quer a minha ajuda e eu quero a sua. Então vamos aos nossos interesses. Sempre admirei o modo como você sempre agiu: persistente, objetivo, franco... e enfim... eu quero que você me ajude com Timaretta.
- Com Timme? Por...
- Timme?! – Ela perguntou e exclamou ao mesmo tempo. – Tudo bem... isso não vem ao caso. Então vai me ajudar? - ela perguntou com uma voz muito doce.
- O quê exatamente você quer que eu faça?
- Muito bem. Ontem eu senti que o tempo não estava bom. Mas eu não interferi por que meu marido é contra esse tipo de intervenção. Apenas não deixei que Damien saísse de casa. Com Timaretta é diferente. Primeiro que ela já tinha ido pra escola quando o tempo começou a piorar e segundo que ela sabe se cuidar e não ia mexer com algo que estivesse além de suas forças... bom... era assim que eu imaginava que ela agiria. Eu senti o tempo ruim, mas também senti um aperto no peito que me dizia que alguma coisa errada estava acontecendo. Enfim, eu estava enganada e Timaretta quis enfrentar um furacão... com força 5 ainda por cima! Ela quase foi... consumida por ele... ela é muito instintiva. Age como se só o agora importasse. Eu sei que ela só queria ajudar, mas só acabou piorando a situação e graças a um deus aí ela está totalmente bem. É nisso que eu quero que você ajude Timaretta. Quero que ela aprenda a controlar seus impulsos... ou pelo menos a dominar a força que tem.
Ela nem sonhava que estava falando com esse “deus ai”. Mas ela não precisava saber.
- E em troca...?
- Vou fazer de tudo para te mandar de volta ao Olimpo! – Ela exclamou de um jeito muito estranho, mas eu não liguei.
- Combinado então. Eu ajudo Timme, e você me ajuda.
Eu suspeitava que isso não seria uma tarefa muito fácil.
- Ótimo! Aqui estão os seus documentos.
- Documentos? Que documentos?
- Os seus, ora!
- Meus?! Desde quando...
- Heitor, meu querido, uma mulher tem sempre que andar prevenida. E eu não sou exceção. Arrumei seus documentos essa tarde.
- Então você já sabia que eu ia aceitar? – Como ela consegue ser assim tão...
- Ora meu rapaz, esqueceu que o conheço como a palma de minha mão? Seu nome será Heitor Nikerios. Apenas Heitor Nikerios. Terá dezoito anos. Vai começar na escola na segunda-feira.
- Escola?!
- A viagem do Olimpo até a Terra o deixou surdo? Sim! Escola! Na Foxtown High School. Estará na sala da minha Timaretta.
Eu apenas a observei boquiaberto. Ela realmente era impossível. Não adiantava discutir. Então apenas peguei os documentos e observei-os.
- Você gosta de velocidade, não Sr. Nikerios?
- Sim.
- O que você acha de uma gsx1300?
- O quê?!
Ela riu e virou-se.
- Você verá.
E então voltamos para festa. Para Timaretta.
O salão agora estava lotado. Por onde passava eu era observado. Mas agora era por admiração. Eu era o único com traje diferente. Eu adoro ser diferente.
Então um cheiro muito forte chegou ao meu nariz e logo em seguida uma mão delicada tocava meu ombro.
- Heitor, meu querido! – Uma voz melosa disse me dando um beijo na bochecha deixando muitos rapazes furiosos.
- Suzan Olimpio! Sabia que você estava aqui! – Ela era a única com traje grego e longo. De uma alça só, o vestido era branco com delicadas linhas de ouro. Muito lindo. Destacava sua sensualidade. A máscara que usava era de bronze puro. Dava a ela um ar de... Afrodite.
- É? Sou tão irresistível assim? – Ela perguntou demonstrando inocência.
- Acho que não preciso responder não é?
Ela simplesmente riu. Do jeito mais sedutor possível. Mas esse riso não me atingia. Não mais.
- O que você faz aqui Heitor? Pensei que odiasse a Terra.
- E estava certa: eu odeio.
- E?
- Não sei como vim parar aqui...
- Ora! Por acaso você não está procurando uma desculpa para ficar perto de mim... ou é?
- É claro que... Deixa quieto.
-Você já conheceu nossa pequena anfitriã? Srta. Fox?
- Oh... sim. – E como! – Por quê?
- Nada. Apenas não se deixe iludir pelo seu rostinho infantil. Ela não merece sua atenção.
E partiu sem dizer mais nada me deixando com a boca ligeiramente aberta. Esse povo estava realmente me enlouquecendo.
As pessoas ao meu redor dançavam sem parar. Comiam, bebiam, davam altas gargalhadas... isso estava me deixando irritado.
- Heitor chegou a hora.
- Hora do quê?
- Da primeira valsa da aniversariante. Você é o par. Não te disse?
Eu estava surpreso.
- Não. Você não me disse absolutamente nada.
- Pois então estou lhe dizendo agora: você é o par.
Ela me puxou no meio da multidão.
O mais engraçado foi ver a cara espantada de Timme quando Perimelle disse em voz muito alta e clara:
- Hora da primeira valsa da aniversariante. Com o admirado Heitor Nikerios.
Então o salão ganhou uma luz fraca, bruxuleante. Dava ao lugar um ar de luar.
Foi então que me lembrei de algo fundamental: Eu não dançava. Não sabia.
A música começou. E eu simplesmente dei uns passos em direção a Timme. Ela percebeu minha insegurança em dançar e murmurou em meu ouvido:
- Siga-me.
Eu obedeci.
A principio foi praticamente um desastre, mas Timme dançava como se estivesse nas nuvens de tão leve. Graças a Zeus os deuses aprendiam tudo muito rápido. E o que começou como uma desastrosa valsa acabou beirando a perfeição.
Aquele momento estava mágico, mas então eu me lembrei da promessa que fiz... ela iria engolir suas palavras. Então eu murmurei:
- Está gostando da valsa querida Timme?
- Claro, os meus pés pisados estão adorando! – Ela disse com um sorriso falso. – E é Mary para você!
- Okay. Mas eu vou te chamar de Timme... Aliás, sua querida mamãe já lhe disse que eu vou ficar por mais tempo aqui?
- O q... O quê?
- Pois é. Fiquei muito feliz, igualzinho você. – Eu disse sarcástico. – E... sou agora Heitor Nikerios... seu companheiro de sala!
- Meu o quê?
- Tadinha! A música te deixou surda?
- Olha aqui seu...
- Não querida Timme. Olha aqui você! Não admito que uma simples semideusa dite as regras ou fale como você está falando! Fique sabendo que estou aqui por ser simplesmente forçado a isso, então enrole essa sua grande língua e pense bem antes de falar comigo!
Durante um bom tempo só se ouviu a música e os risinhos das pessoas que nos cercavam. Continuei sorrindo para as pessoas. Então não aguentei mais.
- E então...Não vai dizer nada?
- Como você pode ver, Querido Heitor, estou mantendo minha língua grande dentro da boca.
Ela me respondeu seca e entediada e em seguida a música acabou e ela praticamente me empurrou, e acenou com a cabeça para mim, pedindo licença.
Apesar das palavras... o que estava acontecendo comigo? Eu queria era dizer: você está linda, querida Timme, aliás, a mais linda... eu só podia estar enlouquecendo. Só podia ser isso.
Quando a valsa acabou ela se afastou rapidamente sem dizer mais nada.
O que restava fazer era sair do meio do salão e deixar que as outras pessoas dançassem.
Comecei, então a observar as amigas da Timme: Jessica e Vanessa.
Elas eram tão... não sei explicar.
Elas falavam ao mesmo tempo e se entendiam. Timme se juntou a elas e parecia fazer parte daquilo.. daquele mundo...
- Quando Perimelle disse para ajudar Timme eu achei que ia ser difícil, mas estou vendo que nem Zeus pode fazer nada. – Eu disse pra mim mesmo admitindo estar muito carrancudo.
O restante da noite se passou lentamente até que não aguentei mais.
- Perimelle toma as chaves! – disse bruscamente.
- Mas... – ela pareceu surpresa. – Você já vai?
- Não tenho nada para fazer aqui.
- Como não? Eu ainda não te entreguei as chaves da minha casa...
- Não você não entendeu. Eu estou devolvendo as chaves, não as pegando.
- Meu querido Heity, deixe de ser turrão! As chaves que eu estou falando são de minha casa, não do meu apartamento. O que eu estou tentando dizer é: você ficará hospedado em minha casa. E não admito recusa!
Uma idéia de repente me surgiu. Timaretta. Sim! Timaretta.
- Já que insiste... Só espero que o Almof... Sean não se importe...
- Sean? E porque ele haveria de se importar?
- Hmm... eu que pergunto.
- Ora deixa de ser idiota. O Sean tem muita coisa pra fazer, e não necessita se importar com quem eu chamo ou deixo de chamar para se hospedar em minha casa. De onde você tirou essa ideia?
- Eu só pensei que...
- Tá, tá. Era uma pergunta retórica. Se você quer ir embora vá então. – ela me interrompeu como se nunca tivesse se desviado do assunto – O seu quarto é o de hóspedes, do lado do quarto de Timaretta.
Ótimo! Seria perfeito.
- Até logo Perimelle.
- Até mais Heitor. E a propósito: é Elle.
- Tudo bem. Até logo... Elle.
E fui embora.
Na manhã seguinte, domingo, eu acordei com o sol, mas fiquei na cama, que era irresistivelmente confortável. Quando eu resolvi levantar já passava das nove horas da manhã. Lavei o rosto e então fui comer... Na Terra eu realmente sentia fome!
Quando saí do quarto eu reparei que a porta do quarto de Timme estava entre aberta e pude ver a silhueta dela inclinada sobre o diário e ouvia uma música... um rock lento que dizia: “...O tempo pode te trazer para baixo, O tempo pode fazê-lo curvar-se, O tempo pode partir seu coração, Fazê-lo implorar por favor, Implorar por favor...” eu pude ver a capa do cd era Eric Clapton. Então ela estava se sentindo tão... romântica depois da festa? Mas nesse mesmo instante ela pareceu irritada e tirou o cd bruscamente. Colocou algo mais agressivo algo que eu pude identificar como AC/DC.
Timaretta realmente era um mistério pra mim!
Bom, não adiantava tentar entende-la assim, sentindo tanta fome!
Desci as escadas e me deparei com a cara amarrada de Elle.
- O que...? – Tentei perguntar, ela me interrompeu.
- Como você ousa não contar que foi VOCÊ que parou o F5? – Ela perguntou chateada.
- Ora Per... Elle! É muito simples. Eu não queria estragar sua ilusão de “filhinha responsável!” – Falei sarcástico.
- Minha filha é muito responsável, sim! Ela só é um pouco... descontrolada. Bom, mas isso já passou, então... eu só peço que você me mantenha informada das coisas. Eu odeio ficar por fora. Espero sinceramente que isso não se repita. Pro seu bem. O café está pronto.
Como ela consegue passar de um assunto para outro assim, do nada?
O café parecia dos deuses, mas eu nunca admitiria isso em voz alta. Tomei-o demoradamente... mas nada de Timme.
Fui para sala e fiquei num sofá que era mais escondido. Foi então que ela desceu muito... muito...”arrumadinha” com seu micro shorts verde garrafa e a blusinha sem manga. Me encolhi mais. Não queria que ela me visse, ou queria? E nesse momento a mãe dela a chamou e ficaram conversando, o que pareceu, uns três minutos e então ela se foi.
Eu estava encolhido no meu canto, mas Perimelle conhecia muito bem sua casa e logo que Timaretta saiu ela já estava na minha frente com as mãos na cintura.
- E então? Vamos às compras? – Parecia mais uma afirmação do que uma pergunta.
- Compras?
-Sim! Compras! Ou você acha que vai viver meses sem nenhuma roupa? Aliás, com apenas uma? – Ela perguntou-me beirando a incredulidade.
- Bom eu sei que teria que comprar roupas, mas... tem que ser hoje?
- Sim! Hoje! Segunda-feira é que não será. Saímos em dez minutos.
O que eu podia fazer? Nada! Por isso só acenti.
Fomos a várias lojas. Compramos muita, muita roupa. Eu não aguentava mais. Eu não precisava de tanta roupa. Onde eu iria usar tudo aquilo?
Passamos ainda em uma ultima loja chamada Kohls e compramos uma calça Levi’s, uma camiseta e uma camisa... coisa que Perimelle dizia ser essencial para o primeiro dia de aula.
Por fim fomos a última loja do dia. Perimelle me prometeu que eu iria amar. Até agora a única coisa que eu sentia era vontade de gritar.
- Bem Heity, espere aqui enquanto eu venho com o seu brinquedinho.
Brinquedinho?! Ela só podia estar delirando.
Aquela não era uma loja de roupas. Era uma loja com várias coisas de duas rodas.
- Espero que você goste Heity.
- Que eu goste...?
Foi então que eu a vi.
- O que é isso Elle?
- Isso é uma Hayabusa GSX1300. Uma moto muito veloz. Muito apropriada para um deu... você. – ela disfarçou quando percebeu a jovem atendente interessada na conversa, ou melhor, em mim.
Era realmente uma beleza. Toda preta, comprida. Era realmente um brinquedinho interessante. Mal podia esperar para ver do que ela era capaz.
Perimelle me ensinou como ligar, como usar o freio, as coisas básicas.
- Agora é só você sentar e pilotar. Os documentos já estão prontos. Só falta chegar a sua licença. Ela é toda sua. Mas hoje você simplesmente vai seguir meu carro até em casa, para praticar. Depois... fica a seu critério.
Chegamos em casa e eu só pude ver o carro de Timme, mas nada da dona.
Quando passei pelo quarto dela pude ver que ela estava jogada na cama num sono profundo. Do jeito como ela estava ela até parecia uma menininha. E me deixei ficar ali plantado no chão observando-a não percebendo o tempo passar. Então reparei que o diário dela estava jogado no chão.
Entrei num átimo de tempo e peguei-o. Fui para o corredor e comecei a ler.
”Foxtown, Nova Jersey 24 de Junho
Querido diário...
Hoje foi a festa dos meus dezoitos anos. Eu só achei que ela seria entediante e monótona, mas só para melhorar a noite aquele serzinho arrogante chamado Heitor apareceu na festa, e só apareceu para me colocar pra baixo. Pena que ele não conseguiu. Pelo contrário, me diverti muito na festa, eu até agradeceria minha mãe se eu não soubesse que foi ela a culpada por ter feito Heitor dançar comigo. E claramente culpada pelo que eu senti por ele.
Ele me abraçou para dançarmos e mesmo pisando constantemente no meu pé eu senti que pertencia àquele abraço, só percebi que ainda estava na Terra quando sarcasticamente ele me chamou de Timme. TIMME? QUE APELIDO É ESSE?”
- Então eu não fui o único que senti... aquilo? – Disse sussurrando.
E no final da folha num borrão quase ilegível estava escrito:
“E graças a sua ‘pericia’ na dança eu não consegui dormir.”
- Então ela pensa em mim? – Porque eu me sentia tão feliz? Coisa esquisita.
Então percebi que a qualquer momento ela poderia acordar e me pegar no flagra e por isso devolvi o diário do jeito que estava jogado ao chão e depois fui para o meu quarto e me joguei na cama também. Afinal, compras eram para as mulheres. Eu estava um trapo.
Eu estava sozinho, num lugar desconhecido e muito silencioso. Uma mulher estava na minha frente, eu não podia ver seu rosto, mas sabia que era ela. Sabia que era Timaretta. Ela sorria pra mim. Eu sorri de volta. Mas então um barulho a fez olhar pra trás e ela saiu correndo. Eu soube para quem ela estava correndo: Sean e Wendy. Eu queria alcançá-la, mas não conseguia. E uma luz, neste instante, cegou meus olhos e a voz doce, mas firme de Perimelle me fez acordar.
- O que acha dessa camisa? – Ela perguntou quase enfiando a camisa nos meus olhos.
- Bonita... Que horas são? – eu estava morto de cansaço. Como um deus pode se sentir assim?
- Cinco e meia.
Eu a olhei chocado?
- Cinco e meia? Deixe-me dormir mulher! – Disse me deitando de novo.
Ela me tirou as cobertas e me sacudiu.
- Hora de acordar Heity. Você está pior que o Dame.
Eu fiquei irritadíssimo. Eu queria tanto mais meia hora de sono...
- Hoje eu vou escolher sua roupa. Veja a combinação e faça parecido amanhã. Está bem?
- Certo.
- Suas roupas estão na cadeira. Se arrume e venha comer.
E num piscar de olhos ela já tinha saído.
Eu me troquei e me olhei no espelho.
- É... Nada mal.
Desci e fui direto pra cozinha. Novamente eu estava morto de fome!
Quando cheguei na cozinha fui para o único lugar vago na mesa de quatro lugares.
Sentei e já fui direto me servindo.
- Que troço é esse? – Eu perguntei mordendo um biscoito cheio de furinhos.
- Waffles. – Damien respondeu com a boca toda cheia.
- Damien Fox! Já falei pra você não falar de boca cheia! – Elle exclamou.
Então enquanto eu observava o Waffles, Timme apareceu na porta da cozinha toda sorridente.
Mas seu sorriso pareceu confuso e depois morto quanto olhou para mesa e depois para mim.
- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou.
- O mesmo que você... indo para a escola.
- Eu quis dizer, o que você está fazendo na minha casa?
- Pergunta pra sua mãe. – Eu respondi não a olhando nos olhos.
- É muito feio negar ajuda aos que precisam Timaretta Fox! – Elle respondeu com um suspiro exasperado.
Do quê ela estava falando?
- Hey! Como assim? Eu não pedi nada, Elle, só para voltar pro Olimpo! – Perguntei me levantando bruscamente, mas sentando-me novamente quando percebi o olhar furioso de Perimelle sobre mim.
E então Timaretta caminhou indiferente até a cadeira que Elle deixou vaga, ao meu lado, e serviu-se de suco.
- Então porque você não vai logo? – Ela perguntou e depois de uma golada continuou. – Você está ocupando minha cadeira.
Eu não me mexi, mas continuei comendo como se nada tivesse acontecido.
O café se passou em total silêncio depois disso só sendo quebrado pelo barulho do relógio.
Timaretta se levantou e simplesmente sumiu muito rápido, mas visível para mim.
- A Mary não vai pra escola não? Ela está atrasada. – George perguntou sem levantar os olhos do jornal.
- Querido... ela já foi...
- Bom então eu vou indo também. – eu disse.
Quando cheguei à garagem Timaretta estava dentro do carro olhando para o banco do passageiro. Ela não pareceu surpresa quando num segundo eu estava ao seu lado ocupando-o.
- Hey! Não senta em cima deles!
- Que coisas são essas? Esses troços verdes e brancos brilhantes? – Eu perguntei tirando umas coisinhas em tirinhas e jogando-as no banco traseiro.
- São pompons de torcida. – ela disse seca.
- Pra quê serve?
- Para torcer? – Ela respondeu fazendo uma pergunta retórica.
- Responda você.
- Descubra sozinho.
- Okay.
- Ótimo!
- Ótimo!
Eu fiquei observando-a dirigir parecendo concentrada enquanto eu ri por dentro da cara zangada que ela estava fazendo.
- Quando Wendy nasceu?
Ela pareceu surpresa, mas logo a expressão se tornou carinhosa e muito orgulhosa.
- 20 de novembro do ano passado. Um mês antes do previsto, mas ela nasceu perfeita.
- É. Parabéns. Sua filha realmente é muito bonita.
Ela sorriu mais abertamente, mas de repente sua visão obscureceu.
- Minha Wendy é realmente muito linda. Acho que puxou a beleza do pai. Com certeza o temperamento foi da mãe.
Ela tinha que lembrar do Almofadinha.
- Mas... ela não é minha filha. Biologicamente falando, é claro.
- Eu pensei que ela fosse sua e do...
- Sean? Sim. Ela é. Minha. Do Sean. Da... Candy.
- Candy?
- A mãe biológica dela. Minha melhor amiga. Uma temperamental. Uma sonhadora...
Depois disso percebi que ela mordia os lábios e apertava o volante com mais força.
O que estaria pensando?
Logo depois ela balançou a cabeça negativamente fazendo com que seus cabelos lhe caíssem no rosto em pequenas mechas.
- Quando você pretende voltar ao Olimpo?
- Não vejo no que isso possa lhe interessar.
- Bem... – Ela começou visivelmente contendo a raiva. – Você está na minha casa, se apossa do meu lugar na mesa, está na minha escola, na minha sala... e ainda acha que isso não me interessa?
- Acho.
- AGRR! Você é irritante... pensei que meu irmão era a pessoa mais insuportável do mundo... mas me enganei. Você ganha dele sem fazer esforço!
- Hmm... não é isso o que as garotas humanas dizem quando estão apaixonadas? – Eu perguntei lembrando-me do diário.
- Sim.
- Quer dizer que você está... apaixonada?
- Não.
- E... qual é a diferença entre você e elas?
- Essa é fácil... – ela respondeu colocando os óculos escuros e olhando-se no espelho do retrovisor. – Eu estou dizendo a verdade.
Ela me mandou dois beijinhos sorrindo cinicamente, e saiu batendo a porta.
Deixando-me perplexo e ligeiramente divertido.
Olhei a mochila que Elle me deu, onde tinha alguns cadernos, e o meu horário.
Fui em direção a primeira aula. FRANCÊS, ótimo, se eu sou grego, e estou nos Estados Unidos, por que se tem aula de Francês?











